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sábado, 7 de novembro de 2020

Joe Biden vence as eleições dos Estados Unidos e acaba com a era Trump

O democrata Joe Biden derrotou o republicano Donald Trump nas eleições 2020 e será o presidente dos Estados Unidos, de acordo com as projeções da imprensa e em meio a um escrutínio agônico de mais de 72 horas. Uma maré de participação, com impulso especial das mulheres e dos jovens, decidiu expulsar da Casa Branca Trump, o empresário imobiliário nova-iorquino que levou o populismo mais agressivo, beirando o xenófobo, ao centro do poder. A vitória de Biden, um político moderado de 77 anos, significa um repúdio a esta era turbulenta e transmite uma poderosa mensagem para o resto do mundo, onde outros movimentos semelhantes estão começando a se desgastar.

A última atualização da contagem na Pensilvânia nesta manhã deste sábado, no horário de Washington, certificou Biden como o vencedor daquele território-chave e, com isso, também como vencedor das eleições. Ele ultrapassou 270 votos eleitorais e Trump acaba de se tornar o primeiro presidente nos últimos 25 anos a perder a reeleição.
A queda de Trump não se traduz no fim das ideias e sentimentos que o impulsionaram, nem implica que o fosso social e cultural que divide este paísesteja em vias de se fechar. Os dispositivos de segurança mobilizados nestes dias nas grandes cidades pelas autoridades e cidadãos comuns, com medo da violência, dão conta do clima de tensão. O próprio presidente o alentou até o último momento, agitando o fantasma da fraude eleitoral. O que o resultado reflete é que a união dos eleitores democratas é mais numerosa e representativa dos Estados Unidos do que a direita branca a que Trump apelou durante os últimos quatro anos.
Biden, o vice-presidente da Administração de Barack Obama, não foi enaltecido pelo entusiasmo ou pelo carisma, mas por uma colossal onda de rejeição a Trump. Esta começou a ser construída com aquela primeira Marcha das Mulheres, no dia seguinte à sua posse, em Washington; com as manifestações pelo clima ou com os protestos dos jovens contra as armas. Nas eleições legislativas de novembro de 2018 cristalizou-se com a maior vitória democrata desde Watergate e, neste verão, depois da dura resposta do mandatário às mobilizações contra o racismo, aumentou sua intensidade. A gestão errática da pandemia acabou estimulando os eleitores e nesta terça-feira eles fecharam seu caminho para um segundo mandato.
Biden, de perfil centrista e quase octogenário, parecia há um ano uma aposta contrária aos tempos, alheia à nova força vital do Partido Democrata, distante dos pujantes discursos da ala esquerda e sem ímpeto suficiente para enfrentar um tigre político como Trump. Sua figura, porém, é a que mais gerou consenso entre as diferentes sensibilidades; sua estabilidade, sua moderação e suas irresistíveis doses de empatia fizeram dele aquele nome em torno do qual cerrar fileiras. Em primárias com mais de 20 pré-candidatos, erigiu-se em vencedor.
O futuro presidente norte-americano é descendente de uma família irlandesa trabalhadora, filho de um vendedor de carros Chevrolet de Delaware, um pequeno Estado situado a uma hora e meia da cidade de Washington. Nasceu em 1942 em Scranton, uma cidade mineira da Pensilvânia, mas seu pai perdeu o emprego e, quando tinha apenas 10 anos, a família se mudou. Em Delaware estudou Direito e também iniciou uma carreira política promissora e precoce. Foi eleito senador pela primeira vez em 1972, aos 29 anos, e lançou sua primeira candidatura à Casa Branca em 1987, com um desenlace para ser esquecido: retirou-se das primárias em meio a acusações de plágio. Nas primárias de 2008, diante de Barack Obama e Hillary Clinton, também saiu cedo, sem alternativas, mas o jovem Obama o escolheu como número dois e foi vice-presidente por oito anos.
Sua vida está marcada tanto pela ambição quanto pela tragédia. Quando completou 30 anos, o senador recém-eleito perdeu a primeira esposa e a filha de um ano em um acidente de carro. Em 2015 morreu de câncer outro de seus filhos, Beau, uma estrela em ascensão do Partido Democrata que sempre o incentivou a continuar.
Nesta terça-feira, ele cumpriu a promessa que fez a Beau e o sonho que começou a acalentar há meio século. Quando prestar juramento terá 78 anos e será o presidente mais idoso a chegar ao Salão Oval. Tudo indica que será presidente de um único mandato. Durante a campanha, para apaziguar receios sobre sua idade, sua equipe adiantou que não se candidataria à reeleição, o que direciona os holofotes para sua companheira de chapa, a futura vice-presidenta Kamala Harris.
A senadora da Califórnia, de 56 anos, será a primeira mulher a ocupar esse cargo e, portanto, uma candidata mais do que potencial para substituir Biden em 2024. A ascensão do número dois de Obama ao cargo mais poderoso do mundo não resolveu a questão da renovação geracional do partido, assunto pendente para a próxima eleição. Harris, uma ex-procuradora negra, de pai jamaicano e mãe indiana, já foi uma das pré-candidatas nas primárias democratas deste ano.
Mas ainda faltam quatro anos muito difíceis. O futuro presidente enfrenta o desafio de tirar o país de uma grave crise econômica e sanitária que ninguém previa há apenas um ano e deve fazer isso em meio a uma grave fratura política e social. Os norte-americanos estão mais divididos do que há quatro anos em questões como raça, gênero ou armas, e a campanha se desenrolou de forma especialmente rude.
Derrota

Trump sinalizou até o final que não aceitaria facilmente a derrota e alimentou suspeitas de fraude eleitoral. É o homem que usa a palavra “perdedor” como insulto mais recorrente e costuma dizer “ganhar” para falar sobre o progresso e o desenvolvimento dos Estados Unidos. Nesta terça-feira, enquanto os norte-americanos votavam, falou com franqueza a um grupo de jornalistas na sede do Comitê Republicano da Virgínia: “Vencer sempre é fácil, perder não. Não para mim”, disse.
O novo presidente presta juramento em 20 de janeiro de 2021, mas a Administração Trump já tem data de morte. Com ela se vai um personagem irrepetível, um vendaval. O confronto é seu habitat e a rejeição lhe dá alimento. Mantém uma histórica relação de amor e ódio com os meios de comunicação: ele os denigre ao mesmo tempo em que se mostra mais acessível do que qualquer outro presidente que se recorde em Washington. Politicamente venenoso, jogou gasolina em cada fogo que o país enfrentou: desde se mostrar equidistante entre os neonazistas e os manifestantes antirracistas de Charlottesville em 2017 até incentivar a revolta contra as ordens de confinamento por causa da pandemia nos Estados democratas.
Pelo menos até a pandemia, o republicano deu argumentos às suas bases para que votassem nele novamente. Conseguiu levar adiante a maior redução de impostos desde a era Reagan, promoveu a desregulamentação dos negócios, especialmente em detrimento das normativas ambientais, e cumpriu suas promessas de mão dura com a imigração até onde o Congresso e a Suprema Corte lhe permitiram.
Na oposição, a rejeição democrata a Trump vai muito além da agenda conservadora que promoveu, tem a ver com o estupor que causou em meio mundo. Os insultos, os acenos para a extrema direita, as pressões sobre o Departamento de Justiça e medidas migratórias tão duras como a separação de crianças migrantes e seus pais desenharam uma imagem irreconhecível dos Estados Unidos. O Partido Republicano de Abraham Lincoln, que nos últimos quatro anos se dobrou aos desígnios de Trump, começa agora seu particular processo de reflexão.
Biden significa o regresso de uma figura do establishment, um perfil de consenso para um tempo de luto. Mais de 320.000 pessoas perderam a vida devido ao coronavírus somente nos Estados Unidos e não há um horizonte claro para o retorno à normalidade. Trump, um empresário com grande faro político, temeu isso desde o primeiro momento. As pressões sobre a Justiça da Ucrânia no verão de 2019 para que anunciasse investigações por corrupção que enlameassem o vice-presidente de Barack Obama derivou no julgamento do impeachment. Trump o venceu protegido pelos republicanos do Senado. Agora os norte-americanos lhe mostraram a porta.

Fonte: El País

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